Madú Sandrudine











Quando nossa estadia no colégio acabou, levou junto a banda do Pedro. Ele não concordava em perder tanto ao mesmo tempo. Foi mais fácil aceitar o convite de seu pai para morar com ele na Argentina. Na nossa conversa de despedida, Pedro disse que jamais ficaria chateado comigo e que não podia me disputar com a minha insegurança, meu medo de mostrar o que realmente sinto em relação a levar a vida como levo. Fui pêga de surpresa: ele sabia das minhas dúvidas e ainda assim me amou. Eu não acredito que resolvi contar toda essa história. Quem a ouvir vai me achar fútil, descontrolada, vazia. Espero saber me explicar até o último ponto. Agora eu vou até o fim.



Pedro sempre dizia: “Íris, meu amor, você está tão calada. Por que não saiu com as garotas? Não deveria ficar me ouvindo compor essas coisas horríveis.” Como ele era um bobo! O fato dele escrever tantas coisas lindas era o que mais me prendia a ele, porque, dessa forma, eu sabia exatamente quem eu tinha ao meu lado. Por que eu não dei a chance que Pedro merecia? Deveria ter me dado a chance de ser uma só: a garota que ele podia chamar de “sua” sem fazê-lo duvidar de suas palavras. Mas não… Não pude deixar aquela farsa continuar. Ele era especial demais para namorar alguém tão cruel como eu, tão calculista. Um alguém que prefere ser para os outros a “Íris da sala 301”, a que não se cansa de sorrir, a que namorava o cara mais popular da história do Colégio Lacerda. A banda do Pedro era recente, e era mais conhecida exatamente pelo fato dele estar nela. Uma parte de mim o namorava para se mostrar “poderosa”, a outra o fazia por ele ser um grande amigo. “Amigo”: a palavra que o fez ir para tão longe.



A ligação da Letícia não teve nenhuma novidade. O ruim foi não conseguir dormir novamente. Droga! Eu precisava fechar meus olhos e fazer com que tudo se tornasse nada. Já disse que amo férias? Principalmente o começo delas. Por que aquela cena, aquele rosto assustado não sai da minha mente? Conrado. Por que ele estaria correndo? Não. Eu não precisava me interessar pelos problemas dos outros, eu já tinha muitos. Por mais que não fossem tão visíveis (nada visíveis, na verdade). E além disso, eu tinha um namorado que me amava. Nunca conversamos sobre o motivo pelo qual ele me amava, eu mesma duvidava que isso fosse totalmente verdade. Não sabia qual versão de mim o namorava, mas de certa forma eu me sentia bem ao lado do Pedro. Isso não significava que ele me completava, talvez apenas me fizesse dar boas e sinceras risadas. E isso me fazia considerá-lo muito. Jamais tive a intenção de magoar as pessoas, menos ainda o Pedro. Ele era real (e meu). Ele não fazia o tipo “sabe-tudo”, mas era muito literário. Cantava, tocava, compunha como ninguém. Nos meus planos, infelizmente, não o via permanecer no meu cotidiano por muito tempo mais. Não o amava tanto quanto ele parecia me amar. Não imagino onde ele se encontra hoje, mas espero que esteja feliz. Não podia deixar de falar dele nessa história.



Andar na chuva… Eu a esperava havia um bom tempo. Decidi voltar para casa, foi difícil colocar a máscara novamente. Quando cheguei, meu pai estava de saída. Não me importei, ele é tão ocupado que nem esperava encontrá-lo em casa àquela hora. Uma coisa eu sabia sobre meu futuro: não seria cirurgiã plática como meu pai, muito menos jornalista como minha mãe. Por que eu nasci? Não fui criada por eles mesmo… Saudade da vovó. Ela sim me ouvia e, principalmente, me aconselhava. Minha mãe estava viajando (novamente), não procurei saber quando voltaria. Ficou tarde, resolvi dormir. Acordei meia – hora depois com o telefonema da Letícia, minha melhor amiga. Ela não fazia parte da minha farsa, ao lado dela eu não tinha opção de me fazer de “garota feliz”. Letícia odiava meu orgulho, minha vontade de ver todos felizes juntamente com meu “falso eu”. Ela era bonita…ainda deve ser. Espero que tenha desistido de todas aquelas roupas pretas e acessórios pesados que, segundo ela, combinavam com a minha alma, com meu coração. As outras meninas do grupo não sabiam que Letícia era minha preferida, minha verdadeira amiga e que elas não passavam de bonequinhas na minha (triste) brincadeira feliz. Mariana, Viviam e Marcela faziam parte do “eu” que não me agradava. Eram ricas, assim como eu, mas usavam isso como um degrau. Iam às festas mais loucas e no dia seguinte não sabiam nem onde passaram a noite. Drogas, bebidas e garotos… Para elas não importava nada se a noite fosse uma combinação desses três fatores. Elas sabiam MESMO como se divertirem, não que eu ache correta a forma com que o faziam. Então, eu apenas compartilhava o álcool, quanto ao resto eu me restringia a rir das besterias que elas faziam. Letícia sempre saía com a gente e por mais que não pertencesse ao nosso patamar social, ela não podia faltar na minha noite. Ela me lembrava que eu ainda tinha algo de bom. As meninas eram bonitas o suficiente para ocuparem meu lugar de “líder” do grupo, mas não tinham o quesito mais importante para se firmarem no cargo (o qual eu no fundo desdenhava totalmente): o cara mais perfeito do colégio, o Pedro. Eu o tinha.



Quando que o vi parado na minha frente, rapidamente dei descanço aos meus pés. Eu não queria parar minha caminhada, eu precisava arejar a cabeça, respirar a paz daquele dia que, não sei porquê, tinha algo de diferente já quando acordei. Talvez fosse minha intuição dizendo que ia chover. Tudo que eu precisava. Não aguentava mais me sufocar, me esconder, ter medo de ser quem eu queria. Estávamos a menos de dois metros de distância um do outro. Os trovões e clarões no céu avisavam que a chuva estava chegando e que não seria fina como tinha sido no mês de Novembro (tão fina que não me recuperei da frustração). Conrado permaneceu do mesmo jeito por alguns segundos (que pareceram horas) e partiu correndo com seus cabelos ensopados pela chuva que já tinha se iniciado e eu nem ao menos tinha percebido. Seus passos se tornaram tão fortes, uma corrida tão frenética que pude ouvir sua respiração pelo tempo que continuei parada alí. Quando não era possível mais ouvir sua recente presença, eu voltei à minha caminhada. Por que correr? Por que aquele rosto assutado? Aqueles olhos inundando minha alma de dúvidas… Aquela cena me atordoou. Não por não termos trocado nenhuma palavra, mas sim pela sua aparência misteriosa. Sem dúvida ele tinha segredos, assim como eu.



Naquela época, não imaginei que uma caminhada numa tarde nublada me levaria tão longe. Eu sabia que ia chover. Afinal, era um Dezembro como os anteriores, tão comum, tão patético. Eu amava férias, me afastar daquele âmbito escolar cruel do qual me fizeram rainha. Quando meus pés já começavam a reclamar pela distância percorrida, parei de me queixar e tudo ficou muito estranho. Ele parou na minha frente, apareceu de uma forma inimaginável. Tão forte, alto… Porém, apaixonadamente, frágil. Como o cara mais normal do colégio poderia chamar minha atenção tão rápido? Ele era lindo, não podia negar. Não fazia parte do grupo dos garotos que discutiam Física após as aulas, nem dos que planejavam encontrar curas ou criar ações de cidadania. Também não jogava futebol com os atléticos e fortes como ele. Conrado era um solitário. Mal o via com meninas, e quando sim, não parecia engajado em suas conversas vazias e seus comentários medíocres. Quando ele percebia seus olhares desejosos, puxava sempre seu canto direito da boca em um sorriso surpresa. Seu olhar estava sempre distante. Não que eu o observasse, sabia apenas seu nome(nesse ano todo trocamos apenas expressões como “com licença”), porém não podia deixar de admitir que sua figura é notável. Sendo quem eu era, não podia revelar meus devaneios a ninguém.



Hoje eu fui ao lago. Permaneci lá tempo suficiente para minhas mãos e pés enrugarem. Esperei a chuva, mas parece que trocamos de lugar, ela me esqueceu lá fora. Resolvi escrever. De alma lavada, de corpo lavado, de coração intacto. Na verdade, não é ele que me atormenta, é a minha mente. Eu olhei para o céu a procura de núvens azuis…Em vão. Eram brancas, todas brancas. As montanhas que se renderam à minha frente me fizeram esquecer os altos edifícios. As plantas eram tão verdes que não as vi morrerem. Vi a luz e sabia que alguém poderia apagá-la a qualquer momento. Então, o que obter para um dia abandonar enfim? Eu me faço de tudo isso… Só há uma coisa a qual está pronta para eu me desfazer: Você, Conrado.



et cetera
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